15 maio 2007

Leve


.
Confesso que já tinha saudades de chegar a casa, despir-me e
cair imensa areia no chão!
.
cantei esta

14 maio 2007

A QUEDA DO MITO!!

















Apetece-me cantar (e não ouvir) "Hoje eu tô feliz. Matei o Presidente."
Claro que não matei.
Eu que até sou pela objecção de consciência.
Eu que até tenho zero capacidade de estratégia em orais.
Mas não ser chacinada já foi bom!

Eu inventei duas frases. Ele ralhou que não era nada daquilo. Eu disse espontânea: "vou dizer o que eu sei então!"... ia jurar que naquele preciso momento vi um esgar de sorriso na boqueira esquerda dele.
E eu disse. E o tufão acalmou. Puxa!



(a música de que falo é do Gabriel o pensador)

Trabalho de casa



Inicio trabalho de casa. Chama-se: Andrew Bird.
Eles insistiram com jeitinho. Apanharam-me no meio de outra decisão e eu disse que sim. Até o dinheiro adiantaram até nova mesada.
O mínimo que posso fazer é fazer o trabalho de casa.

30 de Maio, TAGV.

Oxalá

Hoje o meu anjo da guarda telefonou.
Tinha-lhe dito que não lhe ligava, não hoje, amanhã. Mas ela ligou.
Na sua alegria habitual desta vez contava-me feliz da sua vida.
Só mais tarde percebi.
Com a sua história, com os seus pormenores em tom de segredo, com aquela maresia toda...
... disse cá dentro o que faço mal e por onde ir.


A ti, que me deste a oportunidade de pôr aqui este video.
A ti, que por agora ainda estou aqui. (só) até amanhã.

Destino

Águas paradas
Claro luar
um quase nada
muito melhor

Nesta viagem que comecei
Grave miragem a mim chamei

Se foi meu destino
contar com uma historia tão breve
e longo o caminho
mas a alma quer

Se foi meu destino
Cantar com uma voz que me chora
e longo o caminho
Mas a alma adora


Madredeus também.

10 maio 2007

manhã-noite-tarde


















Manhã, a propósito do fazer bem e do fazer mal, disse-me numa voz grossa:
- INÊS, "EM ROMA SÊ ROMANO".
Eu respondi séria e baixinho:
- não tenho jeito para isso...


Noite, eu disse divertida:
- Eu juro que tento ser bem comportada!!!
E ele respondeu a rir-se enquanto fazia girar a minha absoluta falta de jeito para me deixar guiar a dançar:
- Tu és tudo menos bem comportada!


Tarde, dia seguinte, hoje.
Penso: tenho os mecanismos de sobrevivência deficientes.

08 maio 2007

Chico, sempre

Gosto do Chico meigo.
Gosto do Chico triste.
Gosto do Chico malandro.
Gosto do Chico naquela geração... um pouco de inveja de não ter nascido ali.


Pelos dias em que gosto de ouvir as histórias todas que me querem contar.
Pelos dias em que fico silêncio.
Pelos dias em que gosto de malandragem.
Pelos dias que todos saem à rua (hoje)... e eu fico zangada por sentir que aquilo tudo não é paixão, não.
A vida é p'ra valer.

músicas pela mesma ordem. aconselho ouvir.

meigo
triste
malandro
geração

(clicar em cima da palavra)

05 maio 2007

a quem virá















Sabes… eu não faço ideia de quem vais tu ser.
E nessa imensidão toda a parte de saber se és rapaz ou rapariga é uma parte bem pequena e que se descobre depressa.
Todos me perguntam por ti.
Não sei quem serás mas queria dizer-te algumas coisas.

A primeira é que dificilmente terias maior sorte com a barriga onde estás. A tua mãe é muito bonita, em tudo, e eu sei que tu vais gostar de a ver quando nasceres. O teu pai é muito meigo e imagino-o a olhar para ti, perdido do tempo, feliz como ele sabe ser.

Não te quero oferecer coisas, terás muitas prendas (ainda nem nasceste e já tanta gente gosta de ti!). Mas prometo-te o meu tempo. Esse tempo que os adultos têm a mania irritante de dizer que nunca chega, claro que chega. O meu tempo para brincarmos ao que tu quiseres, para te ajudar a descobrir que os brinquedos têm infinitas possibilidades, que é bom encontrá-las (mesmo sem pilhas, partidos ou sem jeito nenhum). O meu tempo para brincarmos com barro (sabes, as probabilidades de teres mais jeito que eu são muitas, mas divertimo-nos na mesma), para treparmos às árvores (estou um pouco destreinada mas não perdi o gosto), para te adormecer, para molhar os pés em diferentes águas, para te deixar só com os teus amigos, para saltarmos em cima de colchões e nos escondermos de quem chegar a casa, abafando os risos. Tempo para te ouvir contar das tuas coisas. O meu tempo para te deixar ser quem és.

Também posso avisar-te que te vais zangar comigo. Não te vou deixar portar mal… porque há a diferença entre fazer disparates (que sabem mesmo bem!) e agir mal. Não te preocupes, também te explico que isso aprende-se devagar, pela vida fora.

Preferia que não me chamasses tia. Sei que não é por ser tia que serei mais importante para ti, por isso chama-me pelo meu nome. Também não tentarei ser o teu adulto preferido (os adultos têm esses caprichos). Vou gostar de sentir que vens ter comigo só porque te apetece.

Queria dizer-te que te espero serena, atenta.

Feira do Livro












Há dias em que dá enorme gosto ir às Feiras e não ter nem um tostão para gastar. Não existe O problema de ter de escolher.
Não foi assim no outro dia, foi antes uma também conhecida sensação (confirmação) de que leio muito pouco, que tinha obrigação de ler mais. Zangada. TANTO por ler.
Hoje só vi uma banca. Fiquei baralhada. Fixei rapidamente 3. E não quis ver mais. Fugi dela. Tentei entrar no grande recinto e meia tonta, quem me via notava, certamente, a hesitação. Passos para frente, em volta, para trás.
Saí e levantei dinheiro. Tentei resistir. Quase duas horas de ausência depois, não resisti mais.
Brinquei com a senhora dizendo, “Tem aqui uma banca que é uma maldade! Apetece dizer: Carregar tudo para minha casa!” Dei-lhe os parabéns e ela concordou com as minhas escolhas, contente.
Agora acordo comigo que tenho de os ler (e sei até quando).




- As ondas, de Virginia Woolf.
- A espuma dos dias, de Boris Vian.
- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector.



imagem de Yves Klein, como o pedro me apresentou.

01 maio 2007

Contacto imediato



Sempre que oiço esta voz penso: casava-me! :)
Mal ele sabe que fez uma letra para mim.

Religião

Um post sobre religião… também parei para pensar se me atreveria.
Será.
Tentará explicar.











Ensonada. Sempre me custou acordar cedo. Sem demasiado esforço, uma forma de entender aqueles dias lá.
Ensonada seguia o caminho de pedras até à igreja e lá esperava-me ele, sorria. Sentava-me naquele colo e ele explicava-me as coisas ao ouvido, sempre meigo. Da missa e sem ser da missa. Entrecortado com alguns olhares de “já te avisei” do pai, por estar eu a distrair o avô, talvez.

Ele nunca leu nada sobre religião. Ele e ela (a avó) não estudavam, não procuravam saber muito.
E nunca conheci outras pessoas tão coerentes
.











Eu seguia-o a muitos passos (muito mais que os dele, que eram grandes) pelo mesmo caminho de pedras. Sabia-nos com pressa. Íamos tocar o sino os dois e eu gostava tanto! Escada estreita e comprida, encaracolada. Subindo depressa ficava tonta. Lá em cima ele prendia os ferros aos sinos. Eu fechava os ouvidos com as mãos e ria-me! Se lá estava também a minha irmã gritávamos, gritávamos muito porque ninguém nos podia ouvir. E riamo-nos!

Ele nunca procurou muitas explicações mas saiu da aldeia o suficiente para saber das coisas feias, porcas e injustas. Um dia aliviado, depois do ataque do lobo, de certeza que ficou feliz por continuar vivo, de certeza que rezou e agradeceu. Sincero. Sozinho.











Sei-me muito injusta…
Nem sei porque me sinto tão mal às vezes. Mas cansa-me a conversa do Deus que existe para nos fazer felizes, aquela espécie de Deus que vive de nos dar consolações. Sempre a história da relação pessoal, do conversar, do explicar.
Nunca soube rezar e até já tentei a sério!
Cansa-me essa imagem sempre sossegada. Sempre ali. Compreensiva sempre. Atenta sempre.
Fico sempre-sempre a pensar, com tanto lugar importante para estar no mundo e para se preocupar havia de estar aqui porquê???
Aqui está tudo bem.
E chateiam-me as músicas. As mesmas músicas. Constantemente. Para todas as horas. Quando se está só a cantar há milhões de músicas outras. E os ciclos obrigatórios. Acordar. Refeição. Refeição. Deitar. Gastam-se as palavras, perco o sentido todo.
Desculpem mas não consigo entender a religião tranquilizadora dos ricos… se lessem, se ouvissem algum “tilt” se devia fazer.
E o “tilt” falha em mim também, quando tranquilizo.
Acredita e serás feliz. É mentira!!!! E não está escrito em lado nenhum que isso acontece a tempo de o sabermos.
Eu sou optimista, mas também já saí da minha aldeia.











Outra pessoa. Oferecia-nos cigarros (e ria-se porque sabia que recusávamos também por pirraça), trazia jeropiga ou uma galinha viva (que ninguém teve coragem de matar). Podia adormecer às vezes. Gostava de mergulhar bem cedo quando nós ainda nos arrepiávamos de preguiça.
Mas na hora de discutir, na hora de crescer ele é implacável. Sempre connosco, mostra-nos no seu mais que simples exemplo que não andamos aqui para sermos felizes e ignorantes. Tudo o que ali líamos nos comprometia e nos exigia. E os textos podiam ser de muitos outros lados. Treta ler por ler. Treta sentir por sentir. É preciso mudar as coisas e no entanto repetiu-nos milhares de vezes “eu não mudo nada nem ninguém” e sabíamos que só nos mudamos a nós e quem quiser vê. Quem quiser questiona também.
Uma vez gritou-me “quero ver se quando fores médica vais cobrar 1000 contos por uma operação aos olhos… aos olhos!!!”.
Gritou-me. Ecoa.

Ele estudou muito. Procurou muito. Procura sempre. Acompanha. Quer-nos melhores. Consequentes.
Sem amarguras, mas com inteligência.

E no entanto sei-me muito injustiça.
E no entanto sei bem que sou eu que não percebo nada.

Cry me a river

Tive um professor enorme que um dia subiu para cima da secretária dele, que ficava em cima do estrado. Abria os braços, também eles enormes, e dizia-nos com o seu ar de gozo que havia muitas formas de olhar para as coisas, que era mesmo importante que fossemos capazes de o fazer... e que dali nós lhe parecíamos bem diferentes.

(eu não consegui evitar dizer que no clube dos poetas mortos depois do professor todos os alunos puderam experimentar a panorâmica também, mas ele fez de conta que não me ouviu :)

Estive a divertir-me a ouvir diferentes formas da mesma letra.







Sem expectativa

Já por aqui se tinha ouvido que estava farta de cinema americano.
Sem ser o melhor filme francês que já vi, nem a produção nacional que mais gostei, souberam então bem estes dois respiros.





Ne le dis à personne,
de Guillaume Canet


Dot.com,
de Luís Galvão Teles



Deixo aqui em nota que refilo porque nunca existe, na net, a imagem do filme que eu queria postar. Nunca!

29 abril 2007

Quem é(s)?






















Problema hereditário de ralhar com quem está triste.
Mas não devias estar triste, estás ouvir? Não quero que estejas triste.

Ante o frio
faz com o coração
o contrário do que fazes com o corpo:
despe-o.
Quando mais nu,
mais ele encontrará
o único agasalho possível
- um outro coração.

conselho do avô
(in chuva pasmada de Mia Couto)
(foto de Willy Ronis)


Olha (!)... afinal somos vários :)
E, ainda assim, ralho!

25 abril 2007

Tarde

e uma cara sardenta encheu-me o olhar...
penso sempre... quem mais se lembraria de escrever "uma cara sardenta" numa música?! fico contente da lembrança.
e hoje, agora mesmo, pensei... será que quem lá vem terá também uma cara sardenta?
6 colos as têm.



"essa miúda" e "dá-me lume" ficaram também na memória desta tarde.



(peço desculpa pela versão roufenha e desafinada da música)

23 abril 2007

Janela



hoje assim.
que não se fale muito. nem muita luz, nem perguntas.
hoje. bem. mas tempo calmo.



Ontem

depois de não dormir o suficiente e rir por demais um fim-de-semana inteiro.
uma viagem com um carro pesado.
tinha de dar para a maluqueira!
bem alto!

16 abril 2007

O grande silêncio















Absolutamente calmo.
Absolutamente belo.
Um filme que gostava tanto de saber filmar.
Todos os tempos. Os tempos diferentes dentro dos momentos iguais, dos espaços iguais.
Um tempo que não entendo mas consigo admirar. Honestamente.
Honesto.
Os panos crus, a madeira gasta, o silêncio.
A neve e o sol. A água. O silêncio
A paz.
As janelas grandes e os armários bonitos. Sem cortinas, sem acessórios.
Sem acessório.
O silêncio.
Povoado.


um filme de Philip Gröning

13 abril 2007

porto














Enorme. Enorme.
Os enormes contentores lá em baixo formam um padrão bonito. Este nevoeiro que não chega a ser frio combina com o porto, combina com o fumo. Combina com homens que trabalham muito e olham o mar, e enfrentam o mar. E desejam o mar.
Aqui as pessoas não param. Devem achar feio, poluído, pobre.
Lá em baixo, no porto, é preciso olhar com atenção para ver alguma pessoa.
O porto parece estar parado. Não fossem as turbinas e o fumo estaria parado.
Não. Uma empilhadora vazia move-se ao fundo.
Gaivotas, claro.
Duas mais juntas. Em equilíbrio e abismo.
Algumas muito perto de mim. Quase demasiado.
É sábado, talvez por isso o não frenesim, o não movimento. Só as turbinas que trabalham sós.
Gosto deste sítio aqui. Gosto.

7.abril.07
barcelona

branca

a subir ao montjüic, quase sempre sem ver ninguém.
entre o verde e o rosa.
cantei baixinho, tranquila pela lembrança:



Se eu beber dessa luz que apaga
A noite em mim
E se um dia eu disser
Que já não quero estar aqui


apareceu a primeira borboleta branca até aí vista em Barcelona.
rita, soube-me bem ter lá assim. muito doce. muito tu.

barcelona 07

cá dentro de nós


>















Eu não me lembrava de quase nada a música, da voz da maria bethânea sim... cantei-cantei. Apenas:
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Onde estará o meu amor?

Sem dar conta absolutamente nenhuma da letra. Serena nas minhas perguntas.
Em salas de paredes Miró, pensava na minha casa (que ainda não tenho) que quero que seja branca-branca. Tectos altos. Janelas brancas e compridas. Paredes vazias. E um quadro de Miró. Pintura mesmo. Um simples, daqueles onde me sinto muito bem. Pouca cor, pouco traço, apenas o certo para me sentir bem lá dentro e querer ficar.


Onde estará o meu amor?
(Chico César)

Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós...
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?


barcelona 07

muito natural



Esta música é muito bonita mesmo.
Especialmente para quem não sabe cantar... ou fazer as coisas muito bem.
Mas bate um coração!

12 abril 2007

demorar-me











morar-me. morar-me devagar.
saber-me. por vezes difícil. por vezes viagem. por vezes só.

02 abril 2007

Viagem

As viagens formam-se bem devagar. No início apenas vontade.
Subitamente: Decisão. Um arrepio, decidi e agora vou. Agora vou. Arrepio.
Afasto o medo. Esqueço. Irei.
E esqueço mesmo. A ideia aparece divertida, por vezes, sem contar, sem ficar.
Aproxima-se.
Só penso em coisas como…
… que caderno vou levar? Tem de ser um caderno sentido desde o início. É difícil. E a caneta, a de todos os dias – tinta permanente.
… que máquina fotográfica vou levar? Tão diferentes uma da outra…
… a quem vou escrever? Terei vontade de escrever?...
… que mochila/saco levo para andar sempre comigo?...
… e um mapa… queria um mapa.
… onde anda o meu canivete?













E não procuro imagens. Não há nada mais horrível do que fotos de guias turísticos. Não há nada mais esquisito do que (pre)ver o que vou poder ver mesmo! É como se apagasse um pouco a surpresa.
... procuro descobrir como me vou sentir.
... ruas que não conheço.
... serei menina aos pulinhos, com vontade de falar muito?
... serei serena, atenta, interior, com vontade de silêncio?
E depois começo a juntar coisas, num sítio qualquer… o chão do quarto ou a mesa do escritório.
Primeiro aquelas coisas. Depois…
… os documentos.
… a única peça de vestuário que não me quero esquecer… neste caso foram os gorros, noutros o lenço, o cachecol…
Converso com quem lá esteve ou lá viveu. Não, não… não quero que me aconselhem o que toda a gente visita, o que toda a gente sabe que tem de visitar… Não, não quero que revelem muito. E eles riscam…
… ruas.
… lojas de rebuçados.
… pormenores num edifício.
… comparações.
… o bairro onde é um pouco perigoso mas é experiência única.
… um mercado de flores.
... anda e perde-te. perde-te.
Depois vou às compras.
… bolachas em pequenos pacotes para as fomes desfinanciadas.
… tostas e queijo querú.
… chourição e sardinhas em tomate (duas coisas que só como em viagem, desde pequena. Muito se enojam os que comigo viajam, mas chega sempre o dia em que pedem e lhes sabe pela vida.)
… lenços e toalhetes (vindo de mim causa estranheza, parece aprumado, mas absolutamente práticos!)
A MOCHILA… ai detesto a parte da roupa. Coisa mais estúpida escolher roupa para sei lá quantos dias. Tento ser simples: não ter frio nem calor. Sobretudo não levar o que não é preciso.
Amanhã parto de viagem.













Fotos de Steve McCurry

Respigar e rebuscar










Curiosidade.
Curiosidade de há muito tempo atrás.
Alguém que tinha dito “é muito bom…”
Curiosidade guardada, quase esquecida, por vezes acordada, estremunhada… adiada.
Ontem encontrada. Ontem escusada.
Hoje escolhida.
OS RESPIGADORES E A RESPIGADORA.
Um documentário muito mais que bonito. Muito mais que cruel. Muito mais que certo.
Consigo encontrar o mais fabuloso cinema.
Consigo encontrar a mais dura realidade (que mais uma vez digo “É preciso ver! É preciso saber!”)
Consigo encontrar uma certa cumplicidade, uma cumplicidade que corre em mim e vem de gerações… gostar de armazéns, de peças pequenas, de objectos abandonados, ferrugem, da delícia das lojas de ferragens… olhar para as coisas e querer recuperar-lhes vida. Parece que o coração se apressa. Apressa-se de vontade de os levar comigo, de lhes encontrar novos sentidos. Às vezes apenas porque têm graça. E essa graça não consigo explicar.
O gosto pelas prendas feitas… de coisas que não serviam para prenda, não serviam para nada.
Muito mais que certo. Porque é certo saber. Verdade.














foto: Agnès Varda, a realizadora e argumentista.
quadro: Des glaneuses de Jean-François Millet

01 abril 2007

RECONHECIMENTO À LOUCURA














Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descermos abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?

E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

José Almada Negreiros

Tenho dias de absoluto desatino. Surge sem eu querer, começo a notar no tom de voz, na irritação que coisas-menos me provocam, na inquietude no corpo, na impaciência de uma espera que nunca diz quando vai acabar.
Tenho esses dias em que não suporto que venham com impossibilidades, com pequenos problemas em sonhos maiores, muito maiores que eles. (tenho vontade de dizer... complicas porque não tens coragem, mas não digo porque isso é ser má.)
Tenho essas horas em que se não vão comigo, cerro os dentes e vou sozinha. Vou sozinha. E sei cá dentro que não queria ir sozinha. Sei cá dentro que não queria ficar aqui, que não consigo ficar aqui e a vida é muito maior, absolutamente bela lá fora. E fujo para fora de mim. Escolho o meu gorro, levo o meu caderno, levo a minha máquina fotográfica (que só uso se me apetecer mesmo), levo as minhas botas e o meu mapa... que só sigo quando quero.
Olhos abertos, foi o que me ensinaram.
Nestes dias não gosto de negociar. Não gosto de convencer. Não gosto de seduzir.
Atrevidamente. É a palavra que mais gosto neste poema.
Descer abismos. Trepar abismos. Onde chegarei? "Pelo sonho não vamos lá" mas falo-ei enquanto cerrar os dentes e avançar.


...
Há filmes, há textos, que me lembram quem sou.
Billy Elliot