30 setembro 2007

saíste-me cá uma peça!


I Acto
Recebi num e-mail de quem não vejo há anos: "É um monólogo muito bem escrito, muito forte e representado por uma actriz magnífica."

II Acto
Enviei 3 mensagens. 3 respostas: "alinho".

III Acto
Noite. Sozinha dentro do carro, à espera que a bilheteira abrisse.
Desliguei o rádio e fiquei a ouvir a chuva que eu tanto quis.

IV Acto
STABAT MATER, de Antonio Tarantino, com encenação de Jorge Silva Melo, pelos Artistas Unidos. A actriz: Maria João Luís.

três frases, eram qualquer coisa assim:

Inteligência não serve para os pobres.
O meu filho, o meu filho que é uma grande cabeça, quando acordou já o mundo tinha acordado. E todos os que chegam a este mundo, chegam sempre depois de ele já ter acordado.


É uma mulher derrotada. Feroz. Derrotada. Vencedora. Derrotada.
E ri-me alto. E sorri sem som. E comovi-me. E arrepiei-me. E zanguei-me. E entristeci-me. E sofri mesmo.
E bati palmas em pé e com força!
É que a personagem e a actriz estão mesmo ali e querem também saber e sentir, é isso que é bom no teatro.
Tinha saudades.

(o título é só uma frase que eu gosto. diz-se cá por casa.)

29 setembro 2007

Silêncio














"Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar em silêncio a meio de uma conversa, ou mesmo em não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico."

A Espera de Rui Zink

Já tentei dizer muitas vezes que não me incomoda o silêncio.
Que é das coisas melhores que se conquista com alguém, esse embalo confortável.
Estamos com a pessoa, mas também estamos no nosso lugar. E esse lugar faz falta, às vezes. Outras vezes fugimos. Preocupo-me de ver alguém que gosto fugir muito, preocupo-me. Mas sei que é disparate meu, nem todos se acham no mesmo lugar.
E o melhor desse silêncio acontecido é sabermos que o interrompemos assim que quisermos e, ainda assim, não temos pressa.

Esbarrei com o texto na parte de trás do livro, na livraria. Virei e deixei-o estar.
fotografia: Gregory Colbert

27 setembro 2007

Apetece...




Há quem o explique pelo signo: gémeos.
Eu não tenho explicação.
Mas que existem dois lados, existem. Duas formas de sentir.
Uma gémea é quieta e meiga. Confiante de coisas boas. Acho que é esta que procuram para conversar, para andar de gaivota e dizer das coisas lá de dentro. Ficar estendida na relva é um óptimo programa.
Outra gémea é muito inquieta e desapacientada. Quer estar sempre a fazer qualquer coisa que possa trazer novas coisas, de que se possa orgulhar. Acho que é esta que procuram para desafios.
Nenhuma das duas gosta de falar do que é mais dela, não é falta de confiança. É apenas como os papéis e as coisas que não aguenta mesmo que mexam.
Nenhuma das duas é dada a ficar triste. A primeira acha que vai correr bem, para onde for vai correr bem. A segunda ralha “vales mais que isso” e cerra os dentes. Ficam tristes, às vezes, mas distraem-se com facilidade. A primeira é muito raro chorar, a segunda chora de fúria. Sem grande razão, depois passa.
Nenhuma das duas gosta de indecisão. Mas a primeira deixa o assunto em modo enevoado, numa espécie de background durante uns dias, e depois encontra um momento de calma e decide (aquilo que normalmente já sentia desde o início). A segunda é impulsiva. Ainda assim as decisões não variam muito, só varia a confusão que faz à volta.

A primeira gémea tem tido mais vontade de estudar do que a segunda!
(ui, tendência para a asneira!)

[Pictures of you - The Cure: reapareceu quando menos esperava e soube mesmo bem]

25 setembro 2007

REvisitado II

HÁ UM ANO, foi assim...



MEGACITIES, um documentário arrojado de Michael Glawogger que observa à lupa o submundo de Bombaim, México, Moscovo e Nova Iorque, quatro exemplos de metrópoles excessivamente povoadas, monstros simultaneamente sedutores e repelentes. Em doze capítulos e onze testemunhos, o realizador esboça um retrato destas populações, e da sua luta diária pela sobrevivência. Mas têm também em comum a resistência e a esperança, a coragem e a dignidade. Porque se este é um documento sobre trabalho, miséria, violência, amor e sexo, é-o também sobre a beleza das pessoas.
(na página indie lisboa)


E foi um murro no estômago. Bem forte. Bem duro.
O realizador apresentava as imagens e as pessoas. Seguíamos as suas vidas. E dá náuseas ver como se vive. E ficamos a sentir-nos estúpidos nas nossas queixas, porque se fosse eu a viver assim desistia. E eles atiram-se para a vida "como jactos para fora da terra".
Foi um murro no estômago. E eu achei importante saber.



HOJE FOI ASSIM...

“Um documentário musical experimental”. É assim que Timo Novotny descreve LIFE IN LOOPS. Partindo de “Megacities”, de Michael Glawogger e recorrendo aos brutos que este realizador não utilizou no filme, Novotny editou tudo e juntou-lhe ainda novas imagens de Tóquio. Se isto por si só não bastasse, acrescente-se ainda a música dos Sofa Surfers que completa esta estrondosa viagem à volta do mundo. Novotny consegue transformar o sangrento trabalho do talhante numa espécie de coreografia de música clássica. LIFE IN LOOPS é, ao mesmo tempo, fascinante e uma exigente experiência sensorial. (na página indie lisboa)

E foi um murro no estômago. Mas com a música, ritmada na repetição dos gestos. Impressionante como combina os movimentos das pessoas e das cidades com a música, como se tivessem filmado, de facto, com ela por fundo.
E foi um murro. E eu achei importante saber.


Quem me dera saber filmar como Michael Glawogger.
Quem me dera saber montar como Timo Novotny.

REvisitado I

Há dois anos...

Passeávamos por Zagreb sem lhe achar muita graça.
Eu gostei da sensação de não estar a perder nada por estar horas na esplanada, com um óptimo café.
Mas do mercado gostei muito. Gastei mais de metade do rolo de fotografia naquele espectáculo de cores e arrumação (quem entende disse diria que os cheiros eram mais que muitos e quase sempre agradáveis, eu não sei mas acredito e tento imaginar).

Hoje...
PLAC
realização: Ana Husman
Grande Prémio de Curta Metragem
no TAGV


PLAC mostra-nos os diferentes ritmos de um mercado local croata onde as pessoas vão comprar os seus produtos.
(na página indie lisboa)

E era o mesmo mercado. E voltei a passear por ali. A imaginar os cheiros.

23 setembro 2007

um dom Marcel

















Um dom Marcel.
Um dom Marcel Marceau.
Gostava de me sentar a uma mesa contigo.
Descobrir o teu jeito de acreditar na humanidade.
Gostava de aprender o que disseste no teu silêncio.
Ficar esquecida de tudo a ver.
Há provas de que se pode conhecer o pior (conhecê-lo de facto) e não azedar, mas também não alinhar.
Há provas de que se pode transformar com ternura.

Marcel Marceau
22 de Março, 1923 - 23 de Setembro, 2007

Demorei muitos anos a gostar de palhaços. Os que conhecia assustavam-me. Faltava-lhes poesia. Faltava-lhes o que me dizer.


fotografia de Erling Mandelmann

21 setembro 2007

Irresistível vontade de mudança




Isto não é um lamento.
Isto não é um descontentamento.
Não nego que este tempo de “apenas estudo”, ainda sem data oficial de acabar, me deixa esse tempo de pensar no “a seguir”.

IRRESISTÍVEL VONTADE DE MUDANÇA.

Mas não que aqui não esteja bem. Estou.
Mas não que eu queira a ruptura pela ruptura.
Não há nada de que me queira afastar.
Só quero um pouco de desarrumação.

IRRESISTÍVEL VONTADE DE MUDANÇA.

Uma casa que não seja tão minha. Um ano é pouco para se fazer uma casa, mas também é muito para não se ter casa.
Pessoas que não tenham ainda palavras para dizer quem sou. Pessoas que ainda procurem essas palavras. Aquela dificuldade de que para chegarem até aqui leva tempo (custa-me sempre muito quando me dizem - ainda que normalmente só o digam quando já chegaram).
Um lugar que não percorra de cor. Que olhe para as coisas com atenção de quem nunca viu. Encontrar novos cafés para ler, novos cantos para estar com um caderno, novas paisagens para não pensar em nada (tenho um talento natural para esta parte), nova sala de cinema. O sol a aparecer de outro ângulo.
Aqui está tudo arrumado. Um ninho onde voltarei sempre.

IRRESISTÍVEL VONTADE DE MUDANÇA.

O Andrew Bird diz muito bem destas coisas nesta fotografia.
Nesta música.
E qual o meu espanto, no concerto, ao descobrir que aquele maravilhoso percussionista, de quem não consegui tirar o olhos, Martin Dosh, era o responsável por esta música. Só podia.

hold your fire
take your place around an open fire

19 setembro 2007

Bloqueio I


















Nunca gostei de balneários.
Não gosto.
Mulheres despidas. Muitos corpos.
Olham-se. Conversam. Comentam-se.
Não gosto desses comentários.
Mas também não é lugar de conversas sérias.
Acho que sou um bocado como os rapazes no urinol… olho em frente e espero, sinceramente, que as restantes façam o mesmo.

Turkish Bath by Jean Auguste Dominique Ingres, painted 1862

Bastidores



9.30 horas de sono. O corpo não habituado.
A esmagadora preguiça habitual (a rita sabia, vinha acordar-me primeiro. antes da casa inteira, na summerweek. primeiro a mim devagar, no meu beliche com vista para um enorme horizonte... depois sim, todos os outros e a cantar!)
Hoje pior.
De pijama até ao computador, recebi uma notícia muito boa. A Revista IM já tem site. No enorme e-mail ela, que eu nunca vi, dizia coisas bonitas. Coisas a que, confesso, não me consigo habituar.
Espreitem o site. Podem inscrever-se para receberem em primeira mão o aviso do lançamento. Ideias, colaboradores, o texto da directora. Um jeito que se fará descobrir com o tempo (para mim também).

www.magazineim.com

14 setembro 2007

Meu dia hoje




Dois elementos.
Mas o que parece não é.
Nem o caracol está parado nem a tarefa lhe está a ser doce.
Arriscado pôr-se a fazer o que não se sabe.
E ainda assim o bicho é o mote da minha tarefa.


Não resisti a acrescentar que esta era a música final de
Lost in translation, da Sofia Coppola. Tanto tempo depois, não esqueço.

12 setembro 2007

Macumba... ou preconceito















Cresci com a ideia de que valia a pena gastar um bom dinheiro numas boas botas.
Ainda que não fossem as mais bonitas (eu o que queria era uns sapatos pretos envernizados!). Porque elas me levariam a todo o lado. E eu percebia isso muito bem, passeava, corria, trepava a árvores. Sabia que ter os pés a doer era o suficiente para andar zangada.

E em poucas coisas mais valia a pena gastar um bom dinheiro.
As casas tornam-se casas, não se compram casas. Mudam-se os mesmos móveis muitas vezes de sítio, juntamos o nosso jeito e não importa se é grande. Receberá sempre muita gente, pouca de cada vez porque a atenção o exige.
Os carros. Menos conforto, rádios terríveis. Canta-se, conversa-se, dorme-se, enche-se de migalhas e areia. Ouve-se “abram os olhos, vejam como aqui é bonito. Abram os olhos!”.
As viagens. Podem-se fazer baratas, gastam-se os mapas e os guias de parques de campismo.
Na roupa não, estraga-se. Na comida não, cozinha-se simples e bom! Em prendas grandes, não.
Principalmente aprendi a poupar e não lamentar a falta de dinheiro (porque é coisa que encontra-se sempre forma de dizer que falta!)
E assim… ainda hoje não gosto de ir às compras. Mesmo as coisas que gosto de comprar, gosto mais de as ver de carteira vazia porque assim aprecio só e não tenho de pensar se preciso, se quero mesmo, se não há nada melhor…













E por isso… fiquei enfeitiçada (fico sempre!) a olhar para elas. Todas muitíssimo arranjadas, muito bonitas, cheias de nuanças e cuidados que eu NÃO SEI apreciar mas percebo existirem pelos comentários que se fazem.
Confirmei um preconceito meu… é que quando vejo uma rapariga de unhas muito grandes e arranjadas e sempre nuns saltos muito altos penso sempre:

É IMPOSSÍVEL QUE ELA TRABALHE MUITO!

08 setembro 2007





Sometimes I climb high above the city
To see all the lights shining there so pretty
And think of the millions of lives going on
At this present moment
And those come and gone

And it make me float free
To feel how small my life must be…

Encontrei-a. Distraí-me. Fiquei a ouvir.
Combina comigo. Agora, por enquanto.


When ever I can I go down to the sea
And wonder at how many miles there must be
And all of the people on all of it’s shores
At this present moment
And those gone before

And it makes me float free
To feel how small my life must be…

Devia haver uma forma de ouvir música debaixo de água.
(Será que já existe?)
Combinava com o sol a pôr-se do lado de lá do vidro nesta piscina destes dias. Enquanto nado semicerro os olhos e, se pensar numa música, com aquela luz-sol-rasante, consigo imaginar que é o final do dia dentro do mar.


Sometimes I’m out in the bustling street
Dazz-led by all of the faces I see
It strikes me we get lost so soon after birth
But one smile can turn-over heaven and earth

And it makes me float free…

Não estou mesmo disposta a perder leveza.
Float free.



fotografia da Babararã

30 agosto 2007

Chuva


















Há cerca de uma semana que todos os dias antes de abrir a persiana penso "quem dera que estivesse a chover MUITO, uma tempestade!".
Nem sou dessas coisas, mas não é que não chove?



A noite em Aveiro trouxe esta música,
como eu ouvia dexy's há... bem, o primeiro era um vinyl!

29 agosto 2007

Balanço curso

(é apenas um possível. com mais uns anos outros balanços farei)



A única altura em que me lembro de ter querido ser médica foi bem pequena, e o que eu queria era ser médica sem fronteiras.
Não mais o quis.



No secundário eu fui sempre aluna do meio para trás na sala. Porque assim dizia o meu número, e era muito ajustado. Estava atenta quando queria, distraída quando queria.
Não tenho ideia de ter sido alguma vez boa aluna. De me sentir boa aluna. Sempre soube que me podia esforçar mais. Sempre houve quem fosse melhor. E, admito, tinha um certo orgulho de fazer outras coisas além da escola… e não eram “actividades”, eram coisas onde tinha responsabilidade e não podia falhar, coisas que me envolviam mais.



Cheguei a enfermagem. Não gostei da escola. Ano de muitas outras mudanças levou por arrasto a vontade de mudar dali também, não sabia para onde. Voltei ao livro dos cursos todos do país. Sociologia? Antropologia? Mas isso para a vida? Perdida… eu gostava de saúde, porque não medicina? Sem muita certeza na escolha, entrei.



Passei o curso todo a pensar que talvez devesse mudar de novo. Sempre levando junto a mim a ideia “provavelmente não vai ser nada disto que eu vou fazer na vida” mas sem saber o que fazer em vez... Sofri algumas vezes com a certeza da minha ignorância, com a sensação de desajuste. Todos pareceram sempre saber tão bem o que queriam, sempre. Continuei a sentir mais entusiasmo pelas coisas que não eram do curso e aí procurava superar-me. E cá dentro isso servia (pouco) de desculpa para não ser boa aluna… insatisfação.



Hoje. Decidi que é médica que quero ser. Sei que não quero ser nada menos do que muito boa médica (de outra maneira não vale mesmo a a pena!). Sei que tenho algumas qualidades que me vão ajudar a pertencer e fazer boas equipas, sei que sou exigente o suficiente para mudar as coisas para melhor, não tenho medo de trabalhar. Sei que sou mais exigente comigo e que isso me vai obrigar a ser sempre mais competente, ainda que morra mil vezes antes. Alguma diferença gostava de marcar.
Sei que tenho tudo para aprender ainda. Sei que a única coisa que tenho é preocupação sincera, sei que gosto de fazer as histórias clínicas sozinha e de as apresentar de forma impecável (o que não é nada fácil porque se o médico que nos ouve for bom vai encontrar sempre muitos erros). Sei que vivo intensamente resultados, melhoras e pioras dos "meus" doentes. Sei que paro muitas vezes a pensar que aquela pessoa estaria melhor em casa…
Sei que sou crítica, muito crítica (o que é muito mau)… mas também sou optimista. Não gosto da forma como, por vezes, me chamam utópica mas gosto de o ser.
Sei que falo verdade quando digo que não é uma profissão mais importante que as outras, que não é mais difícil, que não deve ser mais bem paga. Sei que o princípio da medicina é trabalhar muito para quem precisa e não estatutos, admirações e auto-vanglorizações.
Sei que não vou sobreviver sem fazer as outras coisas de que gosto e que não fazem parte da panóplia de opções “descansar”. Terei de encontrar como.
Sei que tenho tudo para aprender. Mas também sei que a escolha foi MINHA… cerro os dentes e aí vamos.

26 agosto 2007

Modelo de virtudes V



Talvez seja mesmo dele que me lembro sempre que penso em pessoas que, independentemente da vida curta, desregrada, desmedida, exagerada… fizeram qualquer coisa extraordinário, contagiante.
(gostando ou não das músicas não dá para negar)
Talvez sejam eles que mais me deixam aliviada por o rádio do carro ser tão mau que só o ligo quando estou sozinha.
Freddie Mercury (1946-1991)

24 agosto 2007

Modelo de virtudes IV















Esta mulher tinha uma garra incrível. Força da natureza.
E esta música deixa-me sempre bem disposta.
Cássia Eller (1962-2001)



(não sei porquê é preciso esperar um pouco até que a música comece!)

Bolhas


Tenho trocado o tempo na internet pelo tempo assim. 45 minutos todos os dias a nadar. As teorias dividem-se... Pode ser para as dores de costas de estudar que me prometeram. Pode ser para fazer os 30 minutos de exercício diário moderado a intenso que se exige para contrariar as doenças cardiovasculares (já acabei de ler cardiologia!), ou para simplesmente gastar a energia contida durante as horas que estou sentada. Pode ser para me amansar. Pode ser para me cansar e depois ficar bem alegre. Pode ser para descontrair. Pode ser para pensar. Pode ser para me apagar o cérebro durante 45 minutos. Pode ser para ficar a observar como o ser humano não foi feito para nadar, ficar curiosa a olhar os corpos debaixo de água... e depois sorrir do desajeito ou me surpreender de como pode ser bonito, leve.

Acho que tem sido de tudo um pouco. Ter trocado as secretárias pela sombra da nespereira da quinta soube-me pela vida. Estou de volta. Natação continua.

21 agosto 2007

Modelo de virtudes III



Inacreditável a quantidade de pessoas que estas músicas me lembram!
Jim Morrison (1943 - 1971)

17 agosto 2007

Modelo de virtudes II



E quem se atreve a dizer o que seja da vida de quem canta assim? Por mim fico feliz com a música, com as caretas bonitas que faz, com a voz, o sorriso aberto.
Parabéns a ela, hoje, porque não?
Elis Regina (1945-1982)

Modelo de virtudes


É bem verdade que certamente não deve ter sido nenhum modelo de virtudes (se bem que isso quase sempre acrescenta muita graça às pessoas, estou plenamente convicta disso) mas lá que estas músicas e danças dão muita energia lá isso dão!

Elvis Presley (1935-1977)
30 anos

11 agosto 2007

seu ansioso lugar





Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar

Mário Cesariny

Gosto muito das 4 primeiras palavras. Sabe bem reencontrá-las.
Gosto de lucidez também. Que é bem diferente do suposto realismo que as pessoas têm a mania de dizer que têm.
No meio do mar.
Admiro quem se mantém puro envolvendo-se no mundo, nem sempre bonito.
MORTO A NADA é coisa muito boa.
Encontrada perdida é meu estado natural. Tranquila. Uma certa preguiça hoje.


Esta imagem é do filme The Million Dollar Hotel, do Wim Wenders.
Não queria uma imagem a preto e branco. Uma das coisas mais bonitas deste filme, além desse lado escuro da vida que pode ser louco (porque se vive muito no limite e não se sabe bem porquê) mas onde se encontra também a delicadeza, foram as cores... e as janelas! Eu quero ter uma casa com janelas assim.

04 agosto 2007

tudo é experiência!

"A minha secretária e a agência de viagens sabem que quando viajo (vou sempre em classe económica) peço para ficar instalado num hotel de duas ou três estrelas, limpo, com casa de banho e que disponha de comunicações fiáveis para o exterior. É verdade que ao longo da minha vida humanitária já tenho dormido em «hotéis» inacreditáveis, nomeadamente em El Fasher, capital do Darfur no Sudão, em Gabu, na Guiné-Bissau, e na palhota (em Angola chama-se cubata) em Kulbus, no Chade. Muitas vezes dormi no chão ao relento (os meus hotéis de mil estrelas) até mesmo com costelas partidas… um regalo!
Hoje sei que me posso adaptar a qualquer situação. "

Fernando Nobre, fundador da AMI Portugal.

É esta frase que espero dizer um dia, não muito longe.
É mesmo isso que conta, juntando a um trabalho em medicina muito sério, sentir que estamos preparados para viver quase tudo (“tudo” parece-me sempre demais).

E para isso tudo conta, tudo é experiência! (é o que digo baixinho para mim quando as coisas não correm bem ou quando estão a ser difíceis).
E para isso tudo conta… no outro dia surpreendi-me sinceramente de não sabermos todos como é… dormir numa tenda ou escolher dormir fora dela. Acordar encharcada da chuva ou acordar e correr num mergulho para o rio. Entrar num carro sem destino, vários dias. Quase morrer em ultrapassagens numa camioneta à beira mar (lembrar-me da minha mãe tão longe, se ela me soubesse aqui!). Dormir no chão de um comboio. Fazer as necessidades num latrina de terra 15 dias. Subir uma montanha às escuras, sem lanternas, junto às ribanceiras que só vimos no dia seguinte. Não tomar banho por muitos dias ou ter de ir com baldes lá acima ao rio junto aos porcos. Comer pão com nesquick ou outro dia engolir uma mistura gordurosa que nos prometeram que nos faria vomitar de uma vez. Viajar com amigos e ter de conciliar tudo, viajar sozinha e ter de decidir tudo sozinha. Regatear pequenos negócios (detesto!). Tirar fotografias a pormenores e não às coisas importantes (monumentos e essas coisas de postais). Chegar ao fim de uma linha de comboio e não ter como ir a lado algum, nem para trás… fomos à boleia. Alugar uma casa e ter uma grande conversa e gargalhadas com dois idiomas completamente estranhos e incompreensíveis um para o outro. Escrever num caderno que escolhemos com cuidado. Conduzir horas numa estrada “tolerância-zero” sem conta-km. Beber café solúvel num resto de água fria e sem açúcar. Estar com as pessoas que vivem mal, pobres-pobres – ficar num pequeno lugar de África, e chorar depois. Saber que vamos voltar. Acordar num pais diferente daquele onde adormecemos. Querer explicar ideias e coisas que nos são importantes numas palavras que não são a nossa língua. Ser escolhida e ver aninhar-se no meu colo, pela primeira vez e envergonhado, o miúdo que todos detestam (crianças e grandes) e saber ali, só naquele instante, que ele é o mais bonito e inteligente. Conhecer a sua enorme imaginação e mimo (só quando quer, claro), ficar com fama de ter jeito para rufias depois disso.

As coisas que não lembro agora. As coisas que lembro e não conto.
Tudo o que falta viver ainda… o mundo todo!

31 julho 2007

Balanço II - 7 anos em Coimbra
















Confesso-me em balanço. Tem de ser. Porque senão a vida passa muito rápido e não sabemos o que nos aconteceu.
Escrevi uma lista, para mim. Tal e qual por esta ordem, tal e qual como me lembrei e como aqui aparece.

Enfermagem (2000)
Paris
Açores
2 vezes Madrid
Interrrail zona D (Polónia, Hungria, Bósnia, República Checa, Croácia, Eslováquia)
Londres
Viena
Barcelona
CITAC – participação numa peça
Voluntariado 7 semanas em São Tomé e Príncipe, com a Bússola
Workshop artes circences e workshop Clown
6 campos de férias com Mocamfe
Representante de Coimbra na Equipa Nacional do MCE (2000 e 2001)
Directora da revista Comtextos (2004 e 2005)
Reuniões, encontros nacionais, acampamentos… sem conta possível!
Capoeira
3 blogs

Não contando fins-de-semana / férias de norte a sul, litoral e interior.


Nada desta lista diz do que possa ter aprendido ou sentido. Nada diz de quem esteve comigo ou do que assisti ou li. Nada diz do que adorei ou do que resmunguei. Nada diz do que não percebi.
Mas ainda assim publico aqui. Porque qualquer amigo que aqui me leia poderá encontrar um lugar onde estivémos juntos nestes 7 anos. Penso muitas vezes que podia ter escolhido fazer o curso fora de casa... que podia ter conhecido e feito muitas outras coisas. Parece que é sempre muito pouco. Embora MUITO cheio! :)

E juro que ainda vou fazer balanço do curso. (difícil saber...)

Balanço I














Ontem perguntaram-me, sem eu contar:
- A sua profissão?
E eu fiquei toda atrapalhada. (Parvoíce, é o que penso agora.)
Mas ri-me, cocei os caracóis, embaraçada disse:
- Não lhe sei responder à pergunta... estou mesmo a acabar o curso, sabe... mas também ainda não sou licenciada e muito menos médica... hum... pois, ponha estudante que é o que eu faço até Dezembro.

Será que me vou habituar um dia?

30 julho 2007

Dia triste para o cinema



Ernst Ingmar Bergman (Uppsala, 14 de Julho de 1918 — Fårö, 30 de Julho de 2007) dramaturgo e cineasta sueco.
Ouvi na rádio que morreu. Fiquei triste. Vida cheia de cinema, de fabuloso cinema (não sou eu que o digo, assim como não fui eu que o chamei o cineasta das mulheres mas parece-me muito bonito). Triste de ele não ir filmar mais.
Conheço pouco. Muito pouco. Mas lembro-me que me disseram que valia a pena ir ao Alvaláxia ver (a única sala em Portugal que o iria projectar, e na bilheteira perguntei... tinha a ver com a tecnologia de projecção que tinha de ser a melhor). E eu fui. Num dia difícil. Fui sozinha. Não esqueci mais aquela filmagem, os tons de Outono. Aquele sítio que queria conhecer. Aqueles dois velhos que reconheciam um amor longínquo. Os violoncelos. Aquelas duas casas maravilhosas.

Disseram-me, um ou 2 anos depois, com displicência, que era demasiado amargo para a minha idade. Não respondi, mas fiquei irritada.







(clicar para ver as fotografias maiores)