28 abril 2009

25 de Abril






















Também passeei de 2 cravos na mão.
Orgulhosa sim, com a barriga cheia de castanhas assadas.
Há coisas que nunca passam de tempo!

19 abril 2009

Idiossincrasias de um gato



Escolhemos o nome antes de te escolhermos a ti: Botas.
Por causa da história do gato das botas.
Primeiro ele escolheu um irmão teu, tinha patas brancas. Correspondia ao nome, mas miou tanto ao entrar no cesto que ele desistiu, não queria um gato contrariado! Poisado o cesto, tu entraste de livre vontade nele e ficaste quieto, caladinho. Foste tu que nos escolheste então.
Eu supreendi-me de seres tão-tão pequenino ainda.
Babados vimos que já sabias que era na areia que fazias a tuas necessidades e que morrias de medo da praia (só descansando quando conseguiste entrar dentro das camisolas que trazíamos vestidas).

Agora... mais de 1 ano passado:
- Olho para ti e vejo que és um gato meio selvagem;
- És artista dos saltos, dos voos, das quedas e das tropelias;
- Na solidão ocupas-te a inventar que novo e original objecto te servirá de brincadeira/estrago;
- És o único gato na história do veterinário que conseguiu abrir a gaiola a passear-se pelas salas;
- Abres gavetas, enfias-te dentro das cobertas do sofá, entras no ecoponto;
- Comes plantas, sapatos, peças de metal, gostas de fiambre mas não de presunto;
- Mias desesperadamente mal eu ponho um pé dentro do prédio;
- Continuas a adorar a comida gatinhos, a de gatos adultos não te faz assim feliz;
- Gostas de mimos na nossa casa-de-banho (porque muito mais ali do que no resto da casa?);
- És muito, terrivelmente desastrado... nunca vi um gato tropeçar em si mesmo como tu...;
- E quanto mais te ralho por estares agitado demais, mais tu te agitas, mais desastrado te tornas, mais estragos fazes!!

Chateias-me mesmo muito (!)
Há quem diga que os animais ficam parecidos com os donos. Disso não sei, mas gato mais apropriado a esta casa não poderia haver!!! :)

Home cinema IX



ROSENSTRASSE
Alemanha/Holanda, 2003
Realização: Margarethe von Trotta

Na primavera de 1943, um grupo de mulheres alemãs "arianas" fazia história. Elas travavam corajosamente uma protesto não violento, dorido e desesperado pelos seus maridos judeus, presos.
Uma história verídica, bastante desconhecida.
É bom encontrar surpresas assim. Uma força desmedida.

13 abril 2009

remédio santo!



Fico sempre muito bem disposta quando vejo este filme/música!
Quem me dera estar dentro dele!
Ouvir bem alto! E dançar-dançar-dançar.

08 abril 2009

zanga























Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se
com a pessoa certa, na justa medida, no momento certo,
pela razão certa e da maneira certa – isso não é fácil.

Aristóteles, Ética a Nicómaco

Gostei. Primeiro porque nos dá o direito de nos zangarmos. Chateia-me que se espere que sejamos bonzinhos.
Gostei porque tenho muito que aprender com esta frase.
A ver se não me esqueço.

04 abril 2009

elementar






















No outro dia estava numa casa que me recebe sempre muito bem, com carinho, com curiosidade, com leveza... E pensei, sem querer... tanta coisa nesta casa. Tanta coisa. Eles, nunca viveram à larga de dinheiro, aliás começaram com muito pouco. Mas na vida até agora juntaram muitos objectos que gostaram, estão todos aqui. E um dia? Um dia quem fica com tudo isto? É que na altura dos meus avós no máximo herdava-se uma boa mobília de quarto (e que sorte era!), mas agora... nós (que somos uma minoria, eu sei) vamos herdar casas inteiras.
Depois olhei para a casa dos meus pais, que casaram sem nada (e isso não foi nenhuma aflição), mas agora há na casa deles muitas coisas que eles foram reunindo.
Disse-lhes que a casa deles nunca caberá na minha e na da minha irmã. Não se ofenderam, expliquei e perceberam a minha preocupação... é que eu já comecei com muito mais do que eles (!)

Quero ver se me lembro de não juntar muita coisa ao longo da vida.

Desperdício?






















Falava com ela.
Gosto muito de falar com ela.
Talvez tenha sido com ela que aprendi primeiro a conversar. Sim.
Sobretudo nunca desvalorizou qualquer coisa que eu tivesse a dizer, qualquer que fosse a minha idade.

E falávamos sobre desperdício.
Onde está o desperdício?

- Nos 426.000 telemóveis, que só nos EUA, vão para o lixo todos os dias, só para serem trocados por modelos mais recentes. E com eles vão também carregadores, baterias, acessórios...
- Nas múltiplas medidas "higiénicas" que justificam embalagens de plásticos e papeis em tudo o que comemos e utilizamos.
- Na roupa, que não sei como, agora tornou-se uma coisa criticada o vestir a mesma várias vezes. E com ela, sapatos, pulseiras, carteiras (que paciência!).
- Nos brinquedos, como se as crianças não fossem felizes com coisas simples e herdadas e muitas, muitas vezes reinventadas.
- Nos aquecimentos, nos arrefecimentos, nas luzes ligadas só porque sim.
- Nos carros individuais... em todos os electrodomésticos e aparelhos que substituímos e não reparamos.
- Na água (mea culpa, mea culpa com os demorados banhos!)
- Na comida, tanta tanta tanta para o lixo.
- etc. etc.

Papillon






















Eu não faço ideia de que idade tinha quando li este livro.
Uns 15 anos talvez.
Um grande livro que nunca esqueci.
Nunca esqueci a esmagadora sensação de estar preso.
As imagens todas que fiz daquela história verdadeira.
A admiração do que é um espírito LIVRE.


Ontem resolvi ver o filme, tanto tempo depois não fica aquele azedo do que não contaram, a memória ainda sabe que algumas coisas não foram ditas nem transmitidas. Mas serviu para recordar, para reaprender.


Sinopse:
O filme Papillon conta a história de um homem injustamente preso na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Drama norte-americano realizado em 1973 por Franklin J. Schaffner, Papillon foi protagonizado por Steve McQueen, Dustin Hoffman, Victor Jory, Don Gordon e Anthony Zerbe. O argumento é da autoria de Lorenzo Semple Jr. e Dalton Trumbo, adaptando o livro autobiográfico de Henri Charrière com o mesmo nome.

02 abril 2009

Rotundas

Aposto que 5 portugueses bastavam para "encazinar" esta rotunda!



The Magic Roundabout in Swindon, England was constructed in 1972 and consists of five mini-roundabouts arranged in a circle. It is located near the County Ground, home of Swindon Town F.C.



Não sei se há um dia em que não me irrite numa rotunda.

24 março 2009

Mesmo teu...


Eu não sei porque me dizem isto.
Às vezes mau, agreste... outras vezes bom, confortável.

Explicam-me coisas como as tostas com queru, o ficar irritada por roubarem no meu pão durante as refeições, o café logo ao acordar... Coisas que eu nunca achei serem assim minhas.

Mas hoje senti.
Começou ontem com o sentir os dias a virar para mais saborosos. Um postal. Reencontro com frases... "urgente inventar alegria, Multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e risos e manhãs claras."
E hoje, e hoje... consegui mudar a morada fiscal em 2 minutos, consegui entregar a mola da pressiana ao administrador da minha casa, consegui sair mais cedo, recebi o ordenado. E hoje estava sol e eu consegui passear com ele, a ver a minha sombra, a brincar com a minha brancura.

E pensei... A vida muda mesmo e os dias tornam-se muito bons outra vez. Demasiadas contas inesperadas para pagar, mas bem gerido dará... dará!
E pensei... sorri... liguei o carro. E CRRRRRAAAAACCCCCCCCCCC... demorado, inesperado, não localizado... encontrado: o meu retrovisor todo virado do avesso contra a coluna de cimento estacionamento.
E, no meio da fúria, da vontade de chorar pensei... raios! É mesmo MEU!

22 março 2009

EU CONTIGO



Eu, contigo
eu consigo
fazer o que digo

Eu, contigo
eu não cobro
eu não pago
e eu não devo

Devo dizer-te ao ouvido
eu sem ti
não tem sentido
tem sido
(devo dizer-te ao ouvido)
bem bom
bem bom bem bom
bem mais
do que o que é bom
bem bom bem bom




Assim mesmo. Bem bom, bem mais do que o que é bom.

...
(versão mais bonita em CANTO DA BOCA, Sérgio Godinho)

17 março 2009



















PRIMEIRO

"maldita seja a terra por tua causa.
E dela só arrancarás alimento
à custa de penoso trabalho,
todos os dias da tua vida.
Produzir-te-á espinhos e abrolhos,
e comerás a erva dos campos.
Comerás o pão com o suor do teu rosto,
até que voltes à terra de onde foste tirado;
porque tu és pó e ao pó voltarás."

Génesis 3, 17-19

Encontrei esta passagem numa crónica de qualquer revista de cabeleireiro. Nem me lembro quem a citava. Mas fixei-a. E tentei contrariá-la todos os dias desde que a li. De mim para mim... que raio... eu não podia sentir aquilo assim.
Pensei escrevê-la aqui. Mas não o fiz... Intimidou-me.
Hoje sinto coragem para dizer... NÃO É SEMPRE ASSIM!

SEGUNDO

Disseram-me "Ao Interno (de especialidade) dá-se trabalho até que ele queixe!"
Fiquei magoada. Achei indecente alguém defender aquilo.
É sempre injusto. É sempre cruel. É sempre indecente.
Hoje sinto coragem para dizer... QUEIXAR-ME-EI!

Encontrarei a minha forma de seguir.
E espero-a responsável mas com leveza.
Penso muitas vezes que a minha família está cheia de gente que trabalhou muito... e não lhes conheci gestos amargos.
Recomeço.


imagem retirada daqui

08 março 2009

de cão?























Ouvi aquela voz que costuma ser resmungona,
agora leve... (não era para mim)
“Sabes eu nunca vivi nada assim...”
E perdi umas palavras.
“É um tipo de amor diferente. É um tipo de amor incondicional. É o amor que um cão tem por ti, sabes? Não pede nada em troca!”

Senti-me desconfortável e afastei-me.
Um cão? Raios... um cão?
Eu adoro cães, entenda-se.
Mas porque dizem as pessoas que procuram um amor com qualquer tipo de designação ou especificação? Como se procurar valesse de alguma coisa. Investidas e rituais. Sim, claro que sim. Que ficar quieto a achar que o IMPOSSÍVEL é a palavra de ordem é que não.
Mas aqui entre nós, quando acontece é, geralmente, um daqueles tropeções bem grandes que nos dá três voltas, mas mas nos faz aterrar milagrosamente de pés juntos e no maior dos sorrisos.


imagem de um filme inesquecível: Pierrot le fou (1965, Jean-Luc Godard)

24 fevereiro 2009

A Flor























Há decisões importantes que devem ser tomadas com flores.
Foi o que pensei.
A casa tem uma janela grande para o sol.
Eu, nem sempre com muito jeito, talvez mesmo com pouco talento.
Por vezes sou muito impaciente e até intolerante.
Outras vezes fico muito calada, e sinto mesmo que o tenho de ficar.
Mas depois olho para os vasos e rego-os, e falo-lhes, mudo a terra, rio-me de serem tortas a folhas, mimo as flores... e tento perceber de que lado gostam de ter o sol.
Ó flor, queres ir morar lá para casa?

11 janeiro 2009

põe-te em guarda

"Disseram-me um dia, Rita (põe-te em guarda)
aviso-te, a vida é dura (põe-te em guarda)
cerra os dois punhos e andou (põe-te em guarda)
e eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou."

Sérgio Godinho

Também foram palavras que me acolheram nesta nova vida.
Tenho-a cantado para mim muitas vezes. É quando chega o medo. Os medos todos.
Nada que não me tenham avisado. Ainda assim teimo "não tem de ser tão desatinante, não tem!"
Lançar mãos à aventura, escolho esta parte.
Também me ponho em guarda. Sim, porque a profissão/especialidade que escolhi é demasiado séria para me deixar levar ( preguiças e distracções... tenho talento para vocês as duas).

Depois paro de cantar. E falo para mim.
Por favor não te percas. Há coisas boas em ti que correm perigo se te tornares demasiado obstinada e objectiva.
Não percas o teu jeito de defender os teus doentes, os "teus". Não percas os nomes, as expressões, os momentos importantes. Senta-se e olha-os. Observa e fica. Procura saber o que fazem, o que querem, como vivem, como dormiram hoje.
Que os dias não te atropelem.


Chama-me Dr.ª enquanto me passa a mão pela cara várias vezes. Faz assim todos os dias. E eu fico só quieta, a engolir em seco a minha insegurança, a minha meninice demonstrada naquele gesto-carinho... Raios, tenho tanto para aprender... e devo-o esta gente simples que parece tudo aceitar e agradecer.
Que os dias não me atropelem.

08 janeiro 2009

Últimas




Em 2 dias assinei 2 contratos.
Mais 2 se seguem.
Os dias parecem curtos. Pequenas tarefas sucedem-se, suspiro quando olho uma janela com muito sol lá fora.
A casa espalhada por 3 casas. A vida mudada num dia.
Decepções e convicções. Teimosia?
Teimosia sim.
"Mas a vida era a vida, e tudo mudou."
Miguel Torga
Foi a frase que mais gostei na recepção a esta nova vida.
Não mudou tudo. O importante está no lugar quente que se preenche cá dentro.

A casa não terá nenhum luxo. Está ali despida. Olho e penso: não sei se algum dos meus colegas te arrendaria, acho que não.
Mas as casas fazem-se?
Espero que sim.

11 dezembro 2008

Stand by me



"Johnson e Walls filmaram por todo o mundo músicos interpretando a célebre música “Stand by me”, sem que estes alguma vez se tivessem encontrado. O objectivo do projecto era demonstrar que a música era capaz de unir as pessoas por uma causa nobre, apesar das suas diferenças culturais. Pouco depois era criada uma fundação para colocar em prática o principio do documentário: construir escolas em todo o mundo, juntar estudantes e inspirar comunidades através da música." in Público

Está muito bom!
Dá vontade de dançar.

Obrigada a quem ofereceu.

Já está... início novamente





















Há aquele momento em que alguém que não nos é nada, que não tem de nos querer bem...
Esse alguém que respeitamos desde o primeiro momento...
Entre nós uma chispa de dor (minha) e dureza (dela)...
E naquele exacto momento diz-me:
- Tu és capaz!

E fartou-se de falar, ralhou-me mesmo, e falou-falou. E foi SÓ aquilo, nestas e noutras palavras que acrescentou, que importou.
E pronto (não sem muita resistência minha antes), a minha vida tomou um rumo diferente daquele que eu já tinha decidido.
[já lhe disse que daqui a 5 anos venho cá e logo lhe digo se sou eu que lhe pago um jantar ou se é ela que mo paga a mim... - uma gargalhada dela me respondeu]


A pintura é de Norman Rockwell, é apenas porque é muito linda, muito pura, que aqui a coloco. Serei Internista.

09 dezembro 2008

Fim-de-semana prolongado

Nenhuma das fotografias que se segue é minha. Nem sempre apetece fotografar.

Fim-de-semana AUMENTADO
Igreja de Santa Maria - Siza em Marco de Canavezes


Fim-de-semana AVANTAJADO
Museu Ibérico da Máscara e Traje - Bragança


















Fim-de-semana DILATADO
Centro de Arte Contemporânea Graça Morais - Bragança


Fim-de-semana ADIADO
Aldeia de Montesinho - Parque Natural de Montesinho


Fim-de-semana DURADOURO
Puebla de Sanabria - Zamora (Espanha)


Fim-de-semana VASTO
Lagoa de Sanabria - Zamora (Espanha)


Fim-de-semana ESTENDIDO
Laguna de los Peces - Zamora (Espanha)... lagoa gelada,
brincar na neve ao cair do dia!


Fim-de-semana COPIOSO
A Brigada Victor Jara a fazer companhia, bem alto!


Fim-de-semana HERÓICO
Marão acima, Marão abaixo.

01 dezembro 2008

o que mata os nossos mortos é o esquecimento


1ª PARTE
Eu adorava ir à casa delas. Era enorme, um corredor a perder de vista. Eu e a minha irmã tínhamos medo de ir sozinhas durante a noite à casa-de-banho, lá muito ao fundo do um soalho rangente. Elas tratavam-me muito bem, quando se é pequeno é simples saber quem nos quer bem. Adorava-a especialmente a ela, eu era quase da sua altura, e pedia à minha mãe “ela pode ir dormir lá a casa?” (isto era demonstração de carinho apenas destinada a alguns) A minha mãe respondia que não tínhamos cama para ela… e eu logo achava que resolvia a questão, ela cabia na minha!
Elas, eram tias-avós.
Ela, ela era a minha bisavó. Mãe de 11 filhos, 2 pares de gémeos, 1.5m de altura.

2ª PARTE
A primeira vez que me lembro de saber a notícia da morte de alguém foi a dela. A bisavó Piedade tinha morrido.
Não fui ao funeral, mas a minha ideia do que seria não estava longe da realidade. Não me explicaram muitas coisas, mas eu sabia que não a voltaria a ver lá na quinta. Fiquei triste mas não assustada.

3ª PARTE
Seguiram-se outras mortes. Seguiram-se muitos funerais. Aqueles a que fui mais pelos que ficavam vivos, outros como a parte que fica e precisa de se despedir de quem parte. É tranquilizador para mim ver o corpo, torna-se concreta a morte, há uma despedida do corpo da pessoa. Algumas mortes são quase inaceitáveis, mas com muita gente junta, com o falar-recordar-rir-cantar em lágrimas, ficam mais suaves.

4ª PARTE
Concretamente nas pessoas da minha idade vejo com frequência duas formas de reagir à morte. Uma é não querer ir ao funeral, não querer ver o corpo, com a explicação de que se querem lembrar da pessoa viva, bem. Com esta forma há também, por vezes, a fuga de ver as pessoas doentes, a fuga do luto preparado.
Outra forma é pura e simplesmente evitar o assunto, é doloroso demais pensar. Quanto mais falar… Espera-se que nunca a tenhamos de ver nos nossos queridos, embora saibamos que o ciclo natural da vida será esse.

5ª PARTE
O programa Câmara Clara, com Paula Moura Pinheiro, o convidado Manuel Sobrinho Simões (Anatomopatologista), e os testemunhos de José Tolentino Mendonça (Teólogo, Poeta) e Luís Sepúlveda (Escritor). Confirma-se o nosso medo da morte, a nossa vontade de assepsia nesse processo, o afastamento… e, finalmente, o inevitável e (demasiado) brutal confronto com a morte de alguém.
- A fragilidade da vida humana, a pessoa que tinha uma família, que existia e queria viver. O profundo respeito pelo cadáver. A humildade porque não acertamos sempre. O homem que chorou ao encontrar na Argentina o tango que os pais dançavam. [Manuel Sobrinho Simões]
- Um grande tabu revestido de um ocultamento muito grande, o horizonte da morte é completamente afastado do programa de construção do sujeito e das nossas próprias sociedades. Hoje é tudo muito mais rápido, muito mais neutro, muito mais asséptico. [José Tolentino Mendonça]
- É fundamental ter os nossos mortos muito presentes. Desde que falemos dos nossos mortos, desde que contemos as suas histórias, eles estão connosco. O que mata os nossos mortos é o esquecimento. A minha ideia da morte não é traumática. É o fim de algo. Necessário. Estamos. Crescemos. Somos felizes. Sofremos. A vida é maravilhosa… e tem que chegar o dia do fim. [Luís Sepúlveda]


fotografia de Rodney Smith

26 novembro 2008

Listas textos arrumações




Também eu inspirada por conversas amigas lembrei-me de uma sucessão de "textos" que escrevi em tempos. Tempos de não deixar azedar. Numerava-os sempre a vermelho, no cimo de uma folha A4: GRITO DO IPIRANGA 1, GRITO DO IPIRANGA 2, etc... [acho que não passaram dos 4]
E sim, falavam dos medos e das coragens.
Ralhava comigo para encontrar garra para saber do que valia.
Algumas das coisas que marcaram o meu percurso começaram porque ralharam comigo.

fotografia de Rodney Smith

Azulejos - Espinho

Já o tinha pensado fazer há algum tempo.
Chegou um fim do dia:
amostra pouco significativa de uma
recolha de azulejos em Espinho.

22 novembro 2008

abriu-se o mapa






















Abriu-se o mapa.
[e para mim não é tão grande assim]
Joga-se aquilo que se quer ser, aquilo que se quer apostar na profissão, e nas outras nuances da vida. São muitas e não menos desafiantes, e não menos úteis.
Jogam-se algumas coisas que são bem profundas em nós. Ficar perto ou ficar longe dos nossos? [cuidar dos outros e não ser capaz de cuidar dos meus? penso...] Ambição ou conformismo? Qualquer uma delas possível em qualquer lugar. [repito para mim]
Obriga a conhecer-nos e procurarmo-nos.
O que é mais importante para nós?
Tantas frases que eu sempre disse... chega a altura de as escolher de facto.

Palavras: variedade. compromisso. proximidade. holístico. organização. exigência e não humilhação. trabalho muito, desgastado sacrifício não. ir e voltar, saber como foi.

Sei que gosto de trabalhar com o meu tempo, o meu espaço, a minha organização.
Sei que gosto de investigar (soube-o porque fizeram-me essa observação este ano), de descobrir as razões, e costumo desconfiar de respostas rápidas.
Sei que é difícil (praticamente impossível) sentar-me a estudar sem um objectivo muito concreto.
Sei que gosto muito de observar como se mexem as pessoas, as palavras que escolhem para se explicar, os silêncios que aguardam, as perguntas para as quais já têm uma resposta.
Sei que me custa recomeçar do zero a cada pessoa que chega.
Sei que não me atrapalha pedir ajuda ou enviar a pessoa a quem saiba mais do seu problema do que eu, mas que gosto de depois saber o que aconteceu, o que se faz depois.
Sei que viver muito da profissão não me fará bem. Não quero sentir culpa de trabalhar e não quero sentir culpa de desfrutar.
Sei que gosto de gerir o meu esforço e a minha aprendizagem e não de estar pressionada.

Sei que quero morar numa casa de paredes brancas e prateleiras com livros e música, poucas coisas, uma sala insonorizada e um escritório de trabalho. Gostava de ter um alpendre para receber amigos e uma lareira para os dias frios. Gostava que tivesse um quintal pequeno e um cão (e um gato!). Sei que quero poder usufruir dela e de quem lá estará.
Sei que escrever estará presente, só porque sim, sem objectivo. Sei que quero voltar a África para trabalhar. Sei que quero aprender mais, mas docemente (sempre que possível).

19 novembro 2008

octógono


No meu hospital, as mesas do refeitório são octógonos. Quatro lugares virados uns para os outros, quatro espaços entre cada lugar.
Naquele refeitório propicia-se sempre um almoço acompanhado. Diferentes especialidades, diferentes profissões. Conversa-se, conversa-se sempre. Fica-se a conhecer quem ali trabalha. Discutem-se coisas importantes, troca-se a nossa vida.

No meu hospital almoço muitas vezes com o meu chefe de serviço e tenho à vontade para lhe dizer, se no meio do trabalho está a distraído, “Dr. (..) sente-se aqui ao pé de mim, precisamos discutir este doente desde o início.” [E ele ri-se. E eu penso… hum… este é um sorriso que eu recebo constantemente dos médicos mais velhos com quem trabalho, não sei bem que significado tem. Talvez qualquer coisa como “É atrevida esta miúda, mas como tem graça vou lá ver o que ela quer.”]

No meu hospital já recebi um olhar preocupado “Não estás com bom ar hoje, se te sentires explodir avisa-me, sim?”

No meu hospital quando o doente entra pela porta da urgência a probabilidade de ser conhecido pelos médicos é bastante grande… é alguém que já viram noutras urgências, que já tiveram na sua equipa de internamento, que acompanham na consulta, ou que já viram lá pelas enfermarias. Evitam-se muitos gastos em investigações repetidas. Medicina de proximidade.

No meu hospital já ouvi “A medicina deve ser exercida com CALMA, com muita CALMA.” e “Cada médico devia ter poucos doentes para se ocupar com muito cuidado de cada um, nada disto que se insiste fazer da medicina.” ou “As pessoas ainda não perceberam que sem sistema básico de saúde, sem a medicina familiar, não se vai a lado nenhum… tapamos buracos!”.

No meu hospital uma médica especialista gosta de mexer no meu cabelo, brinca apenas com ele, distraída às vezes, sempre com carinho.



Pode ser que feche. Ninguém sabe.
Constrói-se e destrói-se em Portugal.
Faz-se obras, remodela-se tudo, investe-se em equipamento e… manda-se fechar em Portugal. Pior… faz-se com que morra lentamente em Portugal (causa menos contestação).
Somos um país de ricos nós.

12 novembro 2008

Medicina e arte


The Doctor - Samuel Luke Fildes

I ACTO
No sábado, em Coimbra, fui a uma palestra sobre Medicina e Arte.
E não sei bem porquê, não foi nada do que esperava. Mas não sei bem o que esperava. E ainda assim gostei. Ficaram algumas coisas, como esta imagem. E outras, que acho que não vou conseguir evitar publicar aqui em breve.
Se quiserem vejam a imagem maior, reparem como o médico está na casa daquela família. Confesso que só agora reparei nisso. Porque o que me prendeu naquela tarde foi o médico estar sentado. Sentado. Toda a luz possível inclinada sobre a doente. Ele olha, todo-atenção, para a menina. E vemos, é impossível não reparar, que o médico está ali há muito tempo. Sabemos apenas. Mas se quisermos comprová-lo, há uma chávena de chá em cima de mesa, com uma colher dentro. Ele olha a menina. Olha-a. Olha-a. E vê-se que ainda não encontrou resposta, procura-procura-procura "o que terá a pequena?", "viverá?", "que poderei fazer?"
À volta não há máquinas, nem "pip's", nem soros...

Parei. Perdi-me do que o conferencista dizia.
E pensei. Ainda que à parte da casa e agora com muita tecnologia... Será que os médicos ainda olham assim para os doentes? Eu nunca fiquei assim a olhar-olhar-olhar-olhar um doente.


II ACTO
Dia de urgência.
A minha doente que estava melhor começa a ficar subitamente muito mal. Eu só dizia, fazendo acreditar os especialistas "Ela falava, ela estava a sentir-se melhor, ela não estava assim. Ela está mal!". E eles observavam-na preocupados. Depois de uma breve melhoria, ela voltou a piorar. E avisou-se a família e avisavam-se entre a equipa que a doente poderia morrer em breve. E eu fiquei angustiada, dizia para mim "outra vez não, outra vez não... ela estava a ficar melhor... ela estava a falar, ela até se riu". E os soros eram trocados, nebulizações, cânulas de oxigénio mais eficientes. As doses dos medicamentos acordadas, os olhos postos no monitor... e a saturação de oxigénio a apitar a vermelho "61%". Olhávamo-nos na equipa, eles mais para mim... tentavam preparar-me aqueles olhos. E eu pensava "não... não". A saturação subia um pouco, não havia mais a fazer. Afastaram-se todos, a urgência estava a abarrotar, era preciso cuidar dos outros.
E eu fiquei.
Não pensei, fiquei.
Fiquei a segurar na cabeça da Sr.ª, tentando ajuda-la a manter as vias respiratórias mais abertas. Ela em coma.
Não sei quanto tempo passou. Ninguém me chamou. Ninguém se aproximou muito.
E eu olhava-olhava-olhava-a. Começou a abrir os olhos, pausadamente, espaçadamente. E eu dizia-lhe baixinho "Vamos a respirar Sr.ª (...), vamos a respirar.", "Muito bem, vamos a respirar". E ela abria os olhos parecendo verificar que eu ainda estava a ali.
Não sei quanto tempo passou. Quando ela estava melhor, afastei-me. Só então percebi que muito tempo tinha passado. Perguntaram-me por ela, todos ficámos a esperar que a partir daí ficasse bem.


III ACTO
Percebi depois que tinha então conseguido entrar um pouco naquele quadro da conferência. Tinha ficado a olhar-olhar-olhar.


IV ACTO
Hoje, calhou em sorte, a Sr.ª calhar na minha equipa, já internada na enfermaria. Fiz-lhe a visita médica normal, como aos outros doentes, desta vez acompanhada de uma colega. Já me afastava quando ela me chamou dizendo "A Dr.ª estava lá, não estava?!"