Foi o nome que lhe demos, foi o nome que para mim ficou, não mais pelo significado inicial, apenas porque a palavra soa bem ao dizer e combina com aquele homem velho, magro, sereno, de sorriso simples.
Tutankhamon foi como todos, mesmo todos, o conheceram pelas minhas histórias, pelas minhas preocupações, pelo carinho que não fiz por disfarçar.
Tutankhamon, sendo um homem que nunca tinha conhecido, fez-me ver:
- que posso tornar numa acérrima defensora dos meus doentes;
- que me enfureço pela desatenção que lhes possam ter;
- que posso acordar com vontade honesta de ir trabalhar e saber como passaram a noite;
- que é bom demorar mais tempo a fazer o diário clínico porque assim faço companhia;
- que as minhas perguntas podem parecer muito ridículas a um Sr. que diz ter mais de 100 anos e que, de facto, o são para quem aceita ser velho.
Este homem fez-me confirmar que é um disparate a tendência que existe para infantilizar os doentes, que é bom ter uma relação que é simples (como aquele sorriso), que é optimista, que respeita o tempo de vida e os saberes de cada um. Apenas.
Estive na vida do Tutankhamon durante 6 semanas. Um dia depois de ter mudado de enfermaria ele faleceu. Eu soube (penso que não por acaso) pelo jornal, numa secção que nunca tinha lido.
E não, não encontro sentido.
3 comentários:
Que bom que tiveste 6 semanas na vida dele e ele na tua. Fizeste-o feliz e ele fez-te crescer. Quem acredita que os "velho" para nada servem que ponha os olhos neste post.Só não quer aprender quem tem medo de viver!
bjo
Que maravilha de filha!
É um texto muito bonito e deixa que pensar.
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